Japoneses substituem prateleiras de livros por tablets.

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Os 2 mil livros de Yusuke Ohki começavam a ocupar espaço demais em seu apartamento em Tóquio, então, ele os escaneou e transferiu para seu iPad, o computador em formato de prancheta da Apple. Agora, seis meses depois, Ohki, de 28 anos, comanda uma empresa iniciante, com 120 funcionários, fazendo a mesma coisa para os clientes.
As condições de vida no Japão, marcadas pelo espaço limitado, e a chegada do iPad, em maio, deram origem a cerca de 60 empresas que transformam livros de papel em livros digitais, uma vez que as editoras vêm se mostrando lentas em fornecer conteúdo para os novos leitores eletrônicos. O Japão ficou para trás em relação aos Estados Unidos no lançamento de e-books por possuir um rígido sistema de preços e devido a incertezas quanto aos direitos autorais, além dos problemas iniciais para reproduzir os caracteres japoneses nas telas, segundo o analista Toshihiro Takagi, da empresa de pesquisa de mercado Impress R&D, em Tóquio.

 

“As pessoas estão arregaçando as mangas porque as editoras não atendem às necessidades do mercado”, diz Takagi.
 
 O mercado de livros e revistas em papel do Japão movimenta US$ 24 bilhões e é o maior do mundo. Agora, o país poderá ver a decolagem dos livros eletrônicos, em meio à concorrência do tablet Galaxy Tab, da Samsung, e dos novos leitores da Sharp e da Sony com o iPad. As vendas de livros digitais no país vão mais que dobrar nos próximos três anos, para 153 bilhões de ienes (US$ 1,9 bilhão), de acordo com o Yano Research Institute, de Tóquio.
Ohki, da empresa recém-criada, e rivais como a Denshica.com e Scan Honpo vêm atendendo a essa demanda. Ohki fundou a Bookscan com Shinya Iwamatsu, um colega de infância, em abril. A empresa converte livros de papel em arquivos em PDF, que podem ser lidos no iPad, no iPhone, no Kindle, da Amazon.com, e no Nook, da Barnes & Noble. A empresa cobra 100 ienes por livro, um serviço que chama de “jisui”, o que significa algo como “cozinhando para si mesmo”.

 

“O mercado de e-books feitos em casa continuará existindo, enquanto não se lidar com a situação de direitos autorais e as pessoas não conseguirem encontrar os livros que querem em formato eletrônico”, diz Masashi Ueno, analista do Yano Research Institute.

 

As leis de direitos autorais do Japão permitem a digitalização de obras protegidas, desde que para uso pessoal e familiar, de acordo com Seichi Higushi, secretário-geral da Associação Nacional de Editoras de Livros do Japão. A reprodução de uma obra comprada por terceiros requer permissão da editora, diz Higushi. A Bookscan exige que os clientes cliquem em um botão atestando que eles possuem essa permissão.

 

“Vem crescendo a pressão sobre a indústria editorial para atender às demandas dos consumidores antes que esse conteúdo feito domesticamente comece a circular ilegalmente”, afirma Nobuo Kurahashi, analista do Mizuho Financial Group, em Tóquio. “Esse é um sinal de demanda latente.”

 

Os japoneses terão comprado livros digitais no valor de 67 bilhões de ienes no ano fiscal que se encerra em 31 de março, em sua maioria histórias em quadrinhos para telefones celulares, segundo Ueno, do Yano Research Institute.
As vendas de iPad e de serviços de armazenagem de documentos na web, como Evernote e Dropbox, ajudam a incentivar essas empresas caseiras. “O lançamento do iPad é o maior fator a tornar esse negócio possível”, diz Ohki. Em julho, sua empresa, que fica em Tóquio, comprou scanners industriais para reduzir a lista de espera de quatro meses enfrentada por seus mais de 12 mil clientes.
As vendas de scanners para consumidores na PFU subiram 80% em junho e mais do que dobraram no mês seguinte, graças ao lançamento do iPad, segundo Tadashi Oura, chefe de marketing de produtos de imagem da empresa. A companhia, que tem sede em Tóquio e é uma subsidiária da Fujitsu, fretou voos para trazer aparelhos de sua fábrica da China e atender ao salto na demanda, diz Oura.
Os compradores japoneses do Kindle são redirecionados para o site da empresa nos EUA, já que não há títulos disponíveis em japonês. Em 2007, a falta de conteúdo e a baixa demanda haviam levado a Sony a suspender as vendas de leitores eletrônicos em seu mercado doméstico. No ano seguinte, quem desistiu foi a Panasonic.
A Sony retomou as vendas de leitores e e-books no Japão em dezembro e formou um empreendimento em 2010 com a operadora de telefonia celular KDDI, a Asahi Shimbun Publishing e a Toppan Printing para fornecer publicações eletrônicas. O grupo concorrerá contra a aliança entre a NTT DoCoMo, maior operadora de telefonia móvel do Japão, e a Dai Nippon Printing.
Satoshi Tagomori, de 28 anos, trabalha em um laboratório farmacêutico em Kyushu, Sudoeste do Japão. Ele teve seus livros escaneados para dar mais espaço ao filho recém-nascido. Conseguiu reduzir em 75% o espaço ocupado pelos livros em seu apartamento de 50 metros quadrados. “Simplesmente não havia mais espaço para livros quando meu filho nasceu”, disse, em entrevista por telefone. “Além disso, estava com medo que as prateleiras pudessem cair”.