Time machine

seagull
Gosto das infinitas possibilidades do olhar. Gosto de pensar que, se pudesse, adoraria parar o tempo, congelar uma cena e experimentar olhar alguma coisa sob diversos ângulos. Este era o meu sonho de criança, inspirado pelos desenhos e seriados de ficção da década de 80, aonde era fantástico quando um vilão congelava o mocinho com um revólver à laser.

 

Desde pequeno, comecei a procurar este brinquedo. Depois de muito tempo, já com os meus 15 anos, acabei encontrando uma caixa-preta, em cima do guarda-roupa do meu pai, que registrava uma cena em um pedaço de filme, que poderia ser ampliado num papel. Achei interessante, roubava de vez em quando pensando que ele não soubesse.  Comecei a experimentar este brinquedo que, sem saber, era o brinquedo que tanto procurava. E foi nessa época que fui apresentado ao mundo da fotografia.

 

Com o equipamento na mão, uma Nikon FE, comecei a parar algumas coisas. Tirava fotos de portas por onde eu passava. Porém, não vi muita graça porque as portas não se mexiam e sempre cabiam dentro da foto da mesma maneira. Mesmo que eu tentasse, não conseguia enxergar as portas de outro jeito. Experimentei então tirar fotos de carros. Ai, percebi que precisava de um brinquedo maior. No começo imaginei porque não estava dando certo: logicamente o carro não cabe dentro da câmera. Porém, não era esse o problema. O problema era que o carro era rápido demais. Precisava de uma máquina melhor. Foi quando comprei uma outra câmera que tinha um mecanismo extremamente rápido de abrir e fechar, conseguindo parar o que eu quisesse.
Comecei a congelar e parar tudo que podia ao meu redor. Porém, não conseguia entender como parar as pessoas. Nunca funcionava. Ao chegar perto delas, a pessoa parava e olhava pra mim. Não era bem isso que eu queria. Queria parar aquele momento natural, não uma pose para foto. Por mais rápido que eu tirasse a foto, ela nunca congelaria na hora que eu queria. Daí, precisei comprar uns acessórios para o meu brinquedo. A brincadeira estava custando caro. Consegui colocar uma lente que fazia de conta que não tinha ninguém olhando. E assim, resolvi o problema de parar as pessoas e percebi que este brinquedo realmente me mostrou as infinitas possibilidades do olhar.

 

Mais pra frente percebi que o meu olho não era igual a lente do brinquedo de parar o tempo. A lente do meu olho era bem maior do que qualquer outra e comecei a pesquisar outras lentes para poder registrar tudo, realmente tudo a minha volta.

 

O que consegui aprender foi que o tempo deve ser registrado, mas não congelado. Deve servir de referência, e como um curso de um rio cheio de água, não deve ser modificado. Ainda uso a minha máquina de parar o tempo mas, aprendi que só com o tempo é possível ver todas as possibilidades do olhar.